11 de abril de 2016

Resenha do livro ' Pés ' de Adri Aleixo



Uma outra versão foi publicada anteriormente no Suplemento Literário de Minas  Gerais

Falo de uma voz que parece ter nascido da paisagem e se expandido no corpo como um poema-emanação.  Versos que brotaram  como continuidade de rios e vales,  e que naturais e vivos, revelam nossa incompletude, fugacidade, desamparo e sublimação.
A concisão e aparente leveza conduzem muitos poemas deste livro. Para um lugar onde flores, água e astros se convertem em símbolos e palavras a partir de uma experiências humana forte e reveladora.

“ Hera/O pior da dor/ são os tentáculos.”

Uma folha que cai, ou um rio que corre: cenas cravadas intensamente na alma e no ethos, escrevem a força do corpo entranhado no mundo como delicadeza e incompletude.
“As pedras/que deixei pelo caminho/desenharam a curva do rio.

É de fato uma poesia que se nutre do dialógico e das possibilidades de imanência, palavra tão em voga e tão pouco compreendida. A mulher,  ser privilegiado por viver mais intensamente no corpo este campo de ressonâncias com a natureza,  vagueia por essas páginas em suas diversas faces sinérgicas.  “É preciso ser mais forte do que si para abordar a escrita”. É preciso ter os pés plantados e descalços para se permitir tal  voo.

“Os pés cansados/ cadafalso, candelabro/ pisar minúcias.”

É preciso estar atento a pistas, degustar imagens,  emergir sensações, permitir-se o desamparo e a desconexão. É preciso grandeza para se chegar ao mínimo, ao rastro, às sutilezas.
 A voz que caminha nas paisagens parece ter  crescido entre frinchas e frestas.  Telúrica, ela revela  que a resiliência pode vir de uma aparente fraqueza. E que o viço nem sempre está no brilho da pétala, mas em sua queda rumo ao chão aportando o solo, oxigenando-o.

 Os poemas deste livro são emanações desta expansão da memória para paisagens através de  versos epigramáticos ou sutilmente confessionais capazes de construir  esse intercâmbio entre ser e natureza.
Não é a perplexidade drummondiana aqui a única força interna a traçar rotas para o poema, existe também algo de reconstrução de uma certa memória do mundo.

 Em seu segundo livro de poemas, uma produção artesanal , a autora mantém seu ritmo e erotismo característicos. Este livro com acabamento ecológico em bambu,  suscita as mais diversas sinestesias, mas oriento: aqui nada é mensurável ou definido. Cabe ao leitor des.caminhar,  ir além das imagens.
Sendo a  concisão  eletiva e esmerada, cada um dos poemas do livro pede um outro  tipo de relação com o tempo e exigirá mais de uma leitura justamente por causa da nitidez e aparente simplicidade e não simplificação do eu- lírico que aqui intervém como um corpo-para-a-paisagem sempre nascendo, sempre morrendo.


Marcelo Ariel

Serviço: Adri Aleixo, Pés, Livros Marianas, 2015